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Meu discurso de jornalismo

novembro 12, 2012

Um dia desses, acho que sexta-feira, na volta para casa comecei a pensar em meu discurso de formatura. Me formei em Sociologia e Jornalismo, na ciência da comunicação social tive a alegria de ser escolhida para o discurso da formatura. Ainda bem que tive a decência de salvá-lo em um e-mail.

Sim, ele é tão divertido quanto eu me lembrava. Palavras que me orgulho de ter pronunciado.Indico para os jornalistas. Ignorem as piadas internas que fazem parte do meu universo e se concentrem na mensagem.

Boa noite a todos//

Em primeiro lugar eu quero agradecer aos meus amigos por terem me escolhido para dizer estas palavras hoje. Não tenho a voz de veludo do Norton ou do Jeferson, mas espero suprir suas expectativas.

Minha família é dona de churrascaria em Curitiba e quando entra um cliente ou amigo do meu vô eu escuto ele falar: “Nêne, tu tá vendo essa minha neta aqui? Ela é jornalista! Tu já pensou?”. Há tanto orgulho em suas palavras que elas saem doces e encorpadas, quase sem esforço. Este orgulho que eu vejo esta noite também nos olhos de nossos avós, pais, tios, irmãos e amigos, espero ver em cada piá e guria com quem convivi nos últimos quatro anos.

Nós não apenas escolhemos como também fomos escolhidos por essa profissão e hoje temos que nos orgulhar e justificar tudo o que aprendemos, discutimos e o que ainda não sabemos sobre ela.

Logo no início da faculdade o nosso diploma foi caçado e caiu. A partir daquele momento deixou de ser obrigatória a conclusão de um curso universitário para exercer nossa profissão. Em decorrência disso, muitos dos nossos abandonaram o jornalismo.

Perdemos colegas durante a faculdade. Uns desistiram porque descobriram que não haviam escolhido a profissão certa – o que é aceitável, afinal aos 17 anos é uma decisão difícil a se tomar – e outros logo após a queda do diploma. Saíram as meninas que tiravam fotos no banheiro, Thamires, Camila, Laiane, , o Diego, o Rodrigo, aquele piá que levantava as meias e o Wellington, que insistiu ou desistiu? Ninguém sabe ao certo pois ele sempre ressurgia pelos corredores de forma inesperada.

Ao final do primeiro ano, a sala, que antes tinha 22 ou 25, não sei ao certo pois tenho rasas memórias daqueles meses, estava com 15 alunos ou menos. Depois disso o desenho da turma ficou mais claro. Na metade do curso nossa turma ficou completa com a chegada do Anízio, um frei franciscano que achava que eu era do capeta pela quantidade de tatuagens e palavrões, mas que se transformou em um grande amigo e sempre provou ter coração de ouro e uma cabeça extremamente aberta para o mundo. E também com a chegada do Gabrielzinho, o filho da Taís que impediu que ela colasse grau conosco hoje, mas que trouxe imensas alegrias e despertou nessa guria uma mulher que será grande jornalista um dia.

Os anos de faculdade não foram fáceis e, apesar de pequena, nossa turma não deixou de questionar, discutir e procurar ampliar as experiências durante a universidade. A verdade é que todo mundo entrou em crise. O curso, a instituição, os professores e nós, os alunos. O que foi positivo nisso foi o amplo espaço de debate e aqui quero ressaltar aquela que considero ser das mais louváveis características da nossa turma, uma das que me faz ter mais orgulho desses amigos que vejo aqui, o senso de democracia.

Qualquer coisa que nós quiséssemos reivindicar junto à universidade ou a algum professor era discutida em longos e calorosos debates regados à revolta, salgados do Marajá e cerveja na Kzona. Para toda e qualquer decisão nossa turma armava uma votação. É meus amigos, essa é uma das maiores vantagens em sermos apenas 12.

Nossa turma não foi das mais festeiras. Também, organizar um churrasco com 12 pessoas, sendo que a metade mora em cidades da região, não é tarefa fácil. Além disso, todos sempre trabalharam com exceção do Thiago, que ficava no posto do pai em troca de uma mesada gorda, do Norton que ficava no MSN do DAEM e do Luan, que fez bem, afinal foi afortunado pela sorte. Mesmo assim, sempre rolava uma cerveja depois da aula, um esquenta na chácara do Paracelso que durava até o sol raiar e umas baladas entre os mais animados.

Queridos amigos, tenho hoje que lhes dizer que este diploma que não tem validade legal valoriza vocês enquanto profissionais, mas certamente não é isso que os torna jornalistas.

Desde o primeiro ano de faculdade tivemos vários exemplos da diversidade que nossa profissão exige e exalta em nossa turma. Do mais sério e rabugento até aquele que nada leva a sério. Do mais teórico e intelectual que quer mudar o mundo aos outros, esportivos, de sessão de fofoca, de televisão, rádio, impresso e internet. Temos aqui enciclopédias ambulantes com memórias que fazem inveja à elefantes como o Waldemar, nosso futuro advogado; temos um exemplar de profissional que faz várias perguntas circulares com a Cíntia; temos o Paracelso que sabe tudo de futebol das séries A, B, C, D, E, F e da várzea; temos o Thiago dos Anjos que é tão silencioso que pode investigar qualquer coisa; e, entre outros, aquele estrelinha que só faz reclamar, não é Norton?

Sem a universidade não teríamos discutido as crises teóricas ou a questão da imparcialidade com o Prof. Roberto Reis e o Luan não teria a chance de perguntar diariamente o significado de paradigma. Para mim especialmente, o prof. Reis foi um divisor de águas no que diz respeito as discussões sobre as teorias da comunicação. Foi com ele que conheci o Habermas e comecei a repensar todas as potencialidades dentro da nossa profissão.

Sem a faculdade não teríamos aprendido os exercícios vocais “grrrrrrr”, a dar nós nas gravatas e os “or”e “ur” proibidos na TV com o Prof. Fernando Garcia que, além de tudo, nos deu uma ampla noção do mercado de trabalho, incentivou e indicou alunos e colegas para jornais, Tvs e rádios. Sem ele também não saberíamos nada sobre a compra brasileira de caças e a crise de transferência de tecnologia junto aos franceses e norte-americanos. Além disso, foi esse o Professor que mais incentivou a prática dentro da universidade, o que justifica sua escolha como nosso paraninfo. Também foi ele que nos deu oportunidade de aprender televisão e assistir à incrível chamada do Jeferson para o Double Two. Ah, Prof, eu concordo com o senhor, a Dani tem que cortar o cabelo.

Não teríamos oportunidades tão intensas de treinar e discutir jornalismo literário e gêneros jornalísticos sem a Prof. Maria Teresa. Foi com ela também que tivemos a oportunidade de fazer um jornal impresso diário com direito de aprender a diagramar, pesquisar, entrevistar, apurar, escrever, fotografar e publicar. Não teríamos também oportunidade de ver o Paracelso dentro de um terno.

Na universidade aprendemos sobre documentários com a Prof. Inês, história da comunicação com a Prof. Ciça e jornalismo científico com a Prof. Linda, coisas que dificilmente veríamos fora dali. Faltou prática e estrutura? Sim. Não vamos mentir, mas temos que olhar o que esses quatro anos nos trouxeram de bom e uma avaliação final me mostra muitos pontos positivos.//

Não teríamos chegado aqui sem as nossas famílias, portanto para elas temos que agradecer também. Mesmo à distância, como no meu caso ou no do Luan, é nas famílias que nos apoiamos e são com eles, nossos pais e irmãos, que compartilhamos cada avanço dentro do jornalismo. Então agradecemos a paciência de assistir jornal ao lado de uma pessoa que critica o texto, a roupa, os gestos e o enquadramento do repórter; agradecemos os ouvidos atentos que escutam as histórias sobre como foi fazer a primeira matéria policial, ganhar a primeira capa de jornal e perder os feriados. Sim, os feriados porque o mundo não para e alguém precisa trabalhar para que ao final do carnaval todos saibam do movimento das estradas, por exemplo. Agradecemos acima de tudo por acreditarem em nós e apoiarem a escolha de uma profissão tão pouco valorizada ao mesmo tempo em que é extremamente importante para a dinâmica do mundo moderno.

Queremos agradecer a Deus. O meu, o teu e o de todos aqui. Cada um tem uma crença diferente, mas todos reconhecem que sem Ele nada é possível e a conclusão desta etapa em nossas vidas não é diferente.

Agradecemos aos nossos amigos, tão companheiros e importantes durante todos esses anos. Nesta sala sempre optamos por compartilhar o conhecimento sem olhar para quem era passada a cola ou explicada a matéria antes da prova.

Ciente de que nesta vida nós também perdemos pessoas importantes, dedico esta conquista aos que se foram. Durante a faculdade perdi a minha vó e um grande amigo da família. Sei que o mesmo pode ter acontecido com muitos de vocês. Então acho importante lembrá-los.

Antes de terminar quero pedir aos meus colegas que não se esqueçam de todas as críticas e discussões em sala de aula. Que nós possamos exercer um jornalismo digno de nos orgulhar, consciente da importância e da centralidade que nossa profissão tem sem nos contentar com um jornalismo medíocre que não passa de fofoca de bairro.

Não nos esqueçamos que o jornalista não é aquele que noticia apenas, é quem dissemina a informação na sociedade e o conhecimento é o que muda a vida das pessoas. Podemos não nos dar conta, mas simplesmente por informar a população sobre seus direitos contribuímos para melhorar a qualidade de vida no nosso país. Nós somos uma importante ponte entre a ciência e a sociedade. Nós podemos apontar o que está errado na política brasileira e lutar por uma revolução que traga justiça para nosso povo. Nosso poder está no fato de termos voz, e por isso temos que insistir em garantir nossos direitos à liberdade de imprensa pois paz sem voz não é paz, é medo.

Além disso, espero que nenhum de nós esqueça que, como afirmou Otto Carpeaux, “um jornalista é um homem que sabe explicar aos outros aquilo que ele próprio não entende”. Nós temos o direito de errar, nossos erros são compreensíveis dada a intensidade e loucura do nosso dia-a-dia e a variedade de assuntos que tratamos. Entretanto, espero que consigamos exercer nossa profissão com qualidade, sem nunca esquecer de checar as informações com o maior número de fontes possíveis. A imprensa não tem o dever da justiça, mas parte deste poder está a nosso alcance.

Por fim, aqui que eu fiz grandes amizades que me fizeram sentir em casa mesmo estando tão longe da minha família. Espero sinceramente vê-los no topo da profissão, afinal, depois que a Patrícia Poeta tirou a Fátima Bernardes do Jornal Nacional tudo é possível.

Obrigada.//

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